Eleitor que votou em Bolsonaro esperando uma revolução ética quebrou a cara de verde e amarelo
Descascou ainda antes do esperado o verniz ético do clã Bolsonaro. O pedido do senador eleito Flávio Bolsonaro ao Supremo para suspender a investigação sobre as movimentações financeiras do ex-assessor Fabrício Queiroz e anular as provas já colhidas funciona praticamente como uma admissão de culpa. Já que não pode responder às suspeitas com fatos, o primeiro filho resolveu recorrer ao tapetão.
Politicamente, a manobra é infantil e só agrava as desconfianças. Juridicamente, a menos que o STF decida nos presentear como uma demonstração coletiva de puxa-saquismo escancarado, deve revelar-se inútil, quando não contraproducente.
Quanto ao eleitor que votou em Bolsonaro esperando uma revolução ética, ele quebrou a cara de verde e amarelo. E a culpa, lamento dizê-lo, é dele mesmo. Ele comprou a narrativa mítico-maniqueísta de que a corrupção tem origem em disposições individuais, isto é, de combinações de elementos genéticos com histórias de vida que tornam o sujeito propenso a roubar.
Obviamente, a realidade é bem mais complexa. Trabalhos empíricos sugerem que fatores disposicionais, como traços de personalidade, influem, mas não dá para menosprezar o papel de elementos situacionais. A oportunidade de fazer um acerto ilegal (ou apenas imoral) se apresenta com frequência? Qual é a chance de ser descoberto e punido? Como estão agindo outros atores na mesma posição?
Essa última questão é importantíssima. Não é coincidência que os termos “ética” e “moral” derivem respectivamente das palavras grega e latina para “costume”. De modo geral, consideramos aceitáveis comportamentos que percebemos como adotados pela maioria dos pares.
Não surpreende assim que o clã Bolsonaro, forjado em anos de espertezas do baixo clero de várias casas legislativas, tenha assimilado algumas dessas práticas. Nomes como Wal do Açaí e Fabrício Queiroz reaparecem agora para assombrá-los.


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